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Eis que vos dou poder para pisar serpentes e escorpiões, e toda a força do inimigo, e nada vos fará dano algum. Lucas 10:19

Surucucu pronta pra matar

 

Estava morando no município de Alvorada do Sul – MS, no treinamento missionário no ano de 1982. Em abril deste mesmo ano recebi a visita da então minha noiva que empenhou uma longa viagem desde o sul das Minas gerais na companhia do saudoso pastor Silas Brum e esposa, e ali pudemos amenizar um pouco da saudade e planejarmos o futuro.

 

Recordo-me que numa tarde de abril de 1982, sentado ao lado da minha noiva, na capela com seus bancos rústicos, feitos com o intuito de não deixar ninguém adormecer. Disse a ela que meu desejo e sonho era, de logo termos um filho, queria colocá-lo no meu cangote e ter um companheiro ao meu lado para as aventuras da vida. Minha noiva arregalou aqueles pares de olhos cativantes e deu aquele suspiro tradicional que a acompanha até nos dias de hoje, senti que queria dizer, como? Como criar um filho nesta vida louca que iremos trilhar?

 

Mas dia 11 de dezembro de 1982 nos casamos e a partir de então começamos na tarefa deliciosa de produzir um filho. E para nossa alegria apesar das circunstâncias do modo como ele veio, no dia 12 de novembro de 1983 nasce o tão desejado filho. E juntos começamos as nossas peripécias e até nos dias de hoje continua.

 

Nesta foto estava com cinco anos, nesta época morávamos entre os índios Zo’é, cerca de 300 km da cidade de Santarém – PA. Tínhamos uma vida simples, sem muito conforto, casa coberta de palhas tecidas pelos próprios índios, paredes de tábuas tirada com muito suor de moto serra e chão de terra batida que caprichosamente, sábado após sábado minha querida Fofa se ajoelhava e com as mãos deslizava aquele barro branco no intuito de dar uma beleza a mais naquela rusticidade.

 

Minha vida era em constantes viagens até as três aldeias cerca de dois dias de caminhada e cuidar da saúde daqueles índios, e em boa parte do tempo minha Fofa ficava com os filhos, Filipe cinco anos, Jaqueline dois anos e meio e o caçula Joab recém nascido.

 

Quando ia sair de viagem procurava abastecê-los com carne, para que pudessem ter o suficiente até a minha volta. E quando retornava uma das primeiras tarefas era ir atrás de carne, lembrando que o açougue mais próximo estava a dias de viagem a pé pela mata, então tínhamos naquele tempo depender unicamente de carne de caça, lembrando que hoje ainda é permitido caçar aqui na Amazônia para subsistência.

 

Eu tinha o hábito de ir ali pertinho de casa, do outro lado deste igarapé (riozinho) da foto, buscar o jantar e meu companheiro nestas caçadas era o meu filho, estava acostumado a esta programação, assim que retornei de mais uma longa viagem, o meu filho foi dizendo: “Pai faz dias que a carne acabou e estamos com vontade de comer carne” é verdade anjo acrescentou minha Fofa. Deixe seu pai tomar uma água e descansar um pouquinho e já vamos ali do outro lado do igarapé buscar o jantar, imagine a alegria do garoto, que felicidade, estava ansioso para ir logo, pois já fazia mais de 20 dias que eu havia partido para as aldeias.

 

Peguei a arma e seguimos para a travessia do igarapé, não havia ponte era apenas uma árvore relativamente fina que usávamos para atravessar, chamamos de pinguela. Ali dei a mão pro meu filho ele ia arrastando os pés sobre aquela árvore e assim íamos avançando, risco de cair naquela água super gelada era grande, então todo cuidado era necessário, mas como de costume ele soltava da minha mão cerca de um metro antes da beira e corria e costumava pular no capinzal que havia ali.

 

Naquela tarde quando passávamos do meio da pinguela, Deus me barrou e disse para eu voltar, parei e disse ao meu filho, vamos voltar. Sim voltar de costas era muito complicado e difícil, mas voltei e ao chegarmos à beira, disse a ele, filho fique aqui me esperando vou lá buscar o jantar e já volto, ele começou a chorar e dizia, mas pai eu sempre fui com o senhor, deixe eu ir, eu quero ir pai, faz tempo que não vou, filho ali pode ter cobra, mas pai todas as vezes que fomos nunca vimos uma...

 

Meu coração partido ao ver aquelas lágrimas, ao ver aquele coraçãozinho decepcionado com o pai, companheiro em todos os momentos, mas chorando ficou ali na beira sentado me esperando voltar e carregar o jantar com suas próprias mãos como fazia sempre.

 

Neste momento que escrevo esta experiência choro, ao lembrar da cena e choro ao ver o cuidado de Deus para com as nossas vidas. Certamente centenas de vezes Deus me livrou dos perigos nas minhas andanças pela Floresta Amazônica sem eu vê-los e muitas vezes me barrou de perigos me mostrando antecipadamente.

 

Nesta tarde Deus estava livrando nossas vidas da dor e sofrimento e livrando a vida do meu filho da morte, sem dúvidas a vida dele seria ceifada naquela tarde por esta cobra uma Surucucu pico de jaca de 2,85 metros, a fama aqui na Amazônia é a seguinte: ela pica e sai debaixo pra pessoa não cair em cima. Segui a travessia e quando chego do outro lado exatamente onde era costume meu filho pular estava esta cobra da foto enrolada naquele exato lugar. Deus maravilhoso, quanto mais O conheço mais O admiro.

 

Obrigado meu Deus pela proteção, obrigado meu Deus pela intimidade que temos e obrigado por ter me ajudado a ouvir a tua voz naquela tarde livrando assim a vida do meu filho.

 

Veio a minha memória o relato do Pastor Bill Moore que perdeu uma filha com três anos de idade picada por exatamente uma cobra idêntica a esta quando estava na tribo Yanomami, infelizmente não houve tempo para salvá-la.

 

Vamos orar pelas famílias que sofrem em decorrência de picadas de cobras. A Organização Mundial da Saúde estima que a quantidade de pessoas que são picadas por cobras a cada ano no mundo pode chegar a 5,4 milhões. Desses, entre 81.000 e 138.000 morrem e até 400.000 ficam permanentemente incapacitadas ou desfiguradas.

 

Obrigado Senhor por nos livrar desta dor, que o Senhor nos ajude a cada dia vivermos esta intimidade contigo, para Te ouvirmos.

Que este relato abençoe sua vida.