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Porque estou certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor!  Romanos 8:38-39

Romanos 8:38-39

SEPULTURA VAZIA

Para mim mais uma viagem de rotina. Viagem de dois dias subindo e descendo serras e atravessando rios e igarapés, cujo propósito era levar saúde em algumas comunidades indígenas.

Aproveitei minha estadia na cidade de Santarém, algo bastante raro naquela época de ir até a cidade, era de ano em ano e fiz um curso de microscopia no Hospital Municipal de Santarém, focando o aprendizado em exames de Malária, Leishmania e Tuberculose, em outra oportunidade fiz um estágio no Hospital de Macapá, aprendendo examinar fezes, urina, corrimentos, enfim todo tipo de exames que não necessitassem de equipamentos sofisticados e que no meio da mata eu pudesse diagnosticar e tratar..

Com este aprendizado o diagnóstico e o tratamento tornaram-se rápidos e salvamos muitas vidas da morte causada pela malária, doença que há anos vinha causando suas vitimas naquelas comunidades indígenas. Segundo a OMS a malária contaminou 228 milhões e matou 405 mil no ano de 2018. Malária mata. Noutros tempos tínhamos que enviar os exames para a cidade e aguardar com paciência os resultados e quando recebíamos a doença já tinha avançado e a recuperação era bem mais demorada.

Preparamo-nos para a viagem fazendo listas do que levar, para não haver esquecimento. Viagem programada para no mínimo 15 dias tudo iria depender da situação que nos deparássemos. Acompanharam-nos nesta viagem dois amigos indígenas que haviam passado um tempo conosco e que aproveitaram nossa companhia para retornarem para suas comunidades.

No primeiro dia de viagem já passavam das 14 horas vimos alguns macacos e os amigos indígenas ficaram desejosos de abatê-los para levar para suas famílias e o meu companheiro de viagem os acompanhou na caçada, eu segui a viagem, pois estava com uma boa carga nas costas e combinei que o esperaria no local onde costumávamos acampar para repor as energias para o próximo dia de caminhada.

Cheguei ao local por volta das 17 horas e nem sinal do companheiro. Ajuntei uma lenha, fiz um fogo e a primeira coisa que faço é um café, gente como renova as ideias, mas como fazer café se as panelas estavam com ele? Andando por ali achei uma lata de sardinha enferrujada, que por descuido em viagens anteriores alguém deixou, Sou totalmente contra deixar lixo na mata, mas aquele lixo me foi de bênção. Dei uma enxaguada peguei a água do rio e fiz um cafezinho tropeiro. Aquela situação me serviu de lição, dali em diante jamais deixei de levar um caldeirão no meu Jamaxim.

Armei meu barraco, atei a rede, cacei um grilo, peguei uma pataca, fisguei um trairão, tirei o bucho, enfiei num espeto improvisado e sapequei para matar a fome, afinal foi o dia todinho de caminhada das 7 as 17 hs sem comer nada. A noite chegou e nem notícias dos caçadores. O dia amanheceu e não sabia se ficava aguardando ou se seguia adiante, preocupado com a saúde dos amigos indígenas aguardei até as 8 hs quando então decidi levantar acampamento e seguir minha viagem sozinho.

As 11 horas os encontro acampados nas margens de um outro rio, haviam abatido um pássaro, mas não tinham fogo para assá-lo, estavam cansados e com fome passaram a noite ali com frio e as tatuquiras saborearam o sangue deles. Seguimos adiante apertando o passo para recuperar o atraso e chegarmos antes da noite na comunidade.

O quadro encontrado ali foi estarrecedor, muitos doentes com a malária. Mas havia um amigo que estava couro e osso e não andava mais e não se alimentava alguns dias, A sepultura já havia sido cavada e todo o ritual de despedida estava em andamento. Dirigi-me ao companheiro de jornada e pedi o quinino injetável, como o doente estava sem condições de receber medicação oral aplicaria uma medicação injetável que agiria com mais rapidez para combater a malária, mas infelizmente o remédio foi esquecido.

Precisávamos salvar aquela vida e aí decidi retornar para a nossa base para buscar o remédio. O companheiro não concordou e achou que seria loucura e que talvez nem desse tempo de salvar aquela vida. Mas tinha que arriscar. Fiz convites a todos ali presentes, para que pelo menos um deles me acompanhasse na viagem de volta, para não ir só, mas eu não era fluente na língua naquela ocasião, tinha limitações de comunicação, talvez não estavam entendendo meu apelo..

E quem arriscaria a vida pra salvar um “morto” eles sabiam e estavam acostumados com aquela situação, a morte era certa, ritual em andamento, quando entram neste estagio da doença alimentação é cortada, alimentam os fortes e sabedores que não havia o que fazer para impedir a morte, muitos deles até são isolados na mata para morrerem. E depois de muitos apelos finalmente um se dispôs a me acompanhar, desde que eu cumprisse o pedido que ele me fizera, o qual eu cumpri com a maior alegria.

Noite toda caiu uma chuva torrencial. Atei minha rede próxima a do doente e ouvi as lamentações da esposa, não consegui dormir era triste demais e ela dizia: “Não vá ainda, eu preciso de você, seus filhos precisam de você. Quem irá caçar para nos alimentar se você morrer? E as lamentações continuaram a noite toda até o dia amanhecer.

Aquela situação me comoveu e a compaixão por aquele homem aumentou sobremaneira. Orei bastante naquela noite, pedindo a Deus sabedoria, forças e que ele me ajudasse na longa caminhada que teria pela frente, me livrando de acidentes, de onças, de cobras e de outras pestes perniciosas viventes naquela mata e que quando retornasse encontrasse a sepultura vazia pois aquela vida ainda não estava pronta para o céu.

Ao amanhecer e debaixo de uma tempestade parti com o amigo indígena de volta, levando apenas um facão e uma arma. Saí com o propósito de fazer em um dia a viagem de dois dias, não poderia demorar, pois poderia ser tarde demais. Rios transbordando e fortes correntezas para atravessar, cuidado redobrado para evitar acidentes. As pedras soltas, o terreno escorregadio, os despenhadeiros implacáveis e a própria limitação física a cada passo era visível. No início da caminhada, a atenção é dobrada, e cada passo, bem calculado. Mas com o passar das horas a experiência obtida tende a causar certo relaxamento. Afinal, caminhou-se de forma segura entre as pedras soltas e o terreno molhado por bastante tempo. É justamente esse o momento da queda. Ao subir às serras as caimbras travavam as pernas, deitava e pedia para o amigo indígena alongar. Mas pela graça de Deus chegamos antes da noite,

A esposa do meu companheiro me viu chegando e começou a chorar pensando que alguma coisa havia acontecido. Acalmei dizendo que ele estava bem e que voltara para buscar um medicamento que foi esquecido.

Quando minha Fofa me viu, disse: “Deus respondeu minha oração, pois orei para que você voltasse pois estou sentindo fortes dores na barriga, ela estava grávida de 8 meses do nosso caçula. Naquela noite foi difícil adormecer, caimbras de tempos em tempos e a Fofa mesmo com dores me ajudou com alongamentos e massagens...